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Juliano nasceu!

─ Isabel!!! Já estendeu as roupa no varal?
─Sim, mãinha! Agora vou cuidá das galinha!
Apesar do calor escaldante que acometia o sertão de Pernambuco, ainda havia quem resistisse morar lá. Eram poucos casebres espalhados por fazendas ressecadas pela falta de chuva. Mas não vá pensando que isso era motivo para que a pequena Isabel, com seus 12 anos de vida, pensasse em desistir de viver. Pelos seus olhos escapavam tanta energia que contagiava quem estivesse perto.
─Mãinha, pruquê nós não muda daqui? 
─Ah... fia... prondi é qui nós vai? Sempre vivemo nessas terra e não temo dinhero pra cambar não.
─Mãinha?! Vou tirá a gente daqui. Cê vai vê.
O sonho de fugir de terras tão maltratadas pelo clima e pela política só foi possível quando Maria de Lourdes, mãe de Isabel, já havia falecido. A vida tem dessas coisas... nem sempre acontece do jeito que planejamos. 
Quando Isabel completara seus 19 anos, uma tia que há muito tempo mudara-se para o Rio de Janeiro, sabendo que a menina estava órfã de mãe e que o irmão, pai de Isabel, suplicava-lhe ajuda para tirar sua filha tão sonhadora daquelas terras abandonadas, mandou um punhado de dinheiro para que Isabel finalmente saísse de Pernambuco e fosse para o Rio.
Chegando em cidade tão grande como nunca imaginara ser, Isabel pôs-se logo a arranjar trabalho em casa de família. Foi Dona Conceição quem abriu as portas de seu apartamento na Tijuca para que Isabel pudesse trabalhar como empregada doméstica. Foi ali, naquele prédio, que Isabel conheceu Júlio, rapaz esbelto, forte, que trabalhava como porteiro.
Talvez um dos problemas da vida seja não construir um plano adequado para não se fazer escolhas erradas. O devido cuidado tomado por Júlio e Isabel evitaria que ela engravidasse um ano depois. Contudo as pessoas humildes costumam encarar as consequências dos descuidos. Antes mesmo que a criança nascesse, Júlio arranjou uma pequena casa no subúrbio da cidade para que ele e Isabel morassem. Não poderiam se casar. Casar custava caro, e eles precisavam arrecadar finanças para a chegada do bebê. 
Dona Josefina, a tia de Isabel, resolveu sair da casa que morava de aluguel para cuidar do lar da sobrinha. Dessa forma, já teriam alguém para tomar conta do neném e Isabel poderia voltar ao trabalho após o período da licença. 
Estava tudo muito bem orquestrado dessa vez. Cuidaram de não fazer escolhas equivocadas. Tudo estava pronto para a chegada de Juliano. Sim. Era menino. Seria um menino com um futuro promissor! Prometera Júlio a Isabel, pois faria tudo para que ele tivesse estudos e condições de ser alguém importante nesta vida que só pensa em engolir aqueles que não aprendem a dançar a música.
Isabel estava feliz como nunca estivera antes. Quem diria que conseguiria sair das terras de sua família, lugar tão esquecido por tudo e todos?!

Gostaria de fazer a referência deste texto em um trabalho escolar ou acadêmico? Veja:

PAES, Marcílio Moreira. "Juliano nasceu"; Pedra Pequena. Disponível em: https://pedra-pequena.blogspot.com/2018/11/juliano-nasceu.html. Acesso em:

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