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Lembranças: um clichê bobo com uma suposta crítica sobre o lugar da arte na sociedade


Há mais ou menos cinco anos, quando eu era um adolescente obcecado pelo gênero romântico nos filmes, assisti, pela primeira vez, ao longa Lembranças (título original: Remember Me). Muito entusiasmado com a promessa de um drama que Robert Pattison oferecia encarnando o personagem principal, lembro que tive boa impressão do filme, e seu final conseguiu me trazer toda a carga emocional que eu esperara. Hoje, tanto tempo depois, assisti mais uma vez ao filme e quero registrar minha atual opinião sobre ele.

As críticas que li a respeito do filme por partes dos estudiosos cinéfilos são contundentes. Muito se falou da pouca expressividade na atuação de Pattison, da falta de envolvimento quando algumas cenas exigiam maior explosão e no estigma deixado por Edward Cullen: o ator parece não saber interpretar de outra forma senão a do vampiro que brilha no sol. Além de tudo, ainda há a falta de originalidade do roteiro repleto de clichês e estereótipos de um filme indie adolescente. Dito de forma mais simples, a crítica brasileira desprezou o filme.

Eu, por outro lado, não sou cinéfilo, não estudo cinema e pouco entendo da sétima arte. A despeito de todas as críticas, minha mente parece ainda estar conectada ao meu eu adolescente de cinco anos atrás. Um filme indie, cheio de clichês cujo personagem principal é um rapaz descolado, revoltado e perdido na vida? Coloca aí que é perfeito para eu assistir num domingo à tarde completamente sozinho em casa.

Além disso, percebi que pouquíssimo foi debatida, ou melhor, nem foi debatida, a questão da arte, presente no filme. As críticas concentradas no ator e no roteiro deixaram escapar essa reflexão que, na minha opinião, é muito interessante. O filme parece sugerir que a gente pense o lugar da arte na sociedade.

Veja bem, ele conta a história de Tyler Hawkins, personagem principal interpretado por Robert Pattison, um jovem adulto apresentado como um perdido na vida, uma pessoa que não encontrou seu lugar na existência. Pra exemplificar, ele passa boa parte dos seus dias frequentando a faculdade, indo à biblioteca para ler livros de filosofia e poesia, porém ele não está matriculado lá. Apesar de existirem naquele lugar coisas que chamem sua atenção, não é exatamente aquilo que ele quer pra ele. Por não saber o que quer, há um conflito entre ele o pai, Charles (Pierce Brosnan): um homem de negócios, bem sucedido, com luxuoso escritório em Nova Iorque.

Apesar da péssima relação, é esse pai quem banca a vida despreocupada do filho e é quem o livra das enrascadas que este se envolve. Isso já fica claro no início, quando Tyler e seu amigo Aidan (Tate Wellington) vão presos por se meterem em uma briga de rua. O pai de Tyler é quem paga a fiança, apesar do filho dizer que não pediu por isso.

A origem dessa relação turbulenta parece ser um drama anterior aos fatos vividos no filme e pouquíssimo explorado: o suicídio do filho mais velho de Charles e irmão adorado por Tyler. Este provavelmente culpa o pai, porque seu irmão não aguentou a realidade de uma vida burocrática e afastada de sua grande paixão: a música. Acontece que o rapaz era artista de uma banda que não teve a carreira decolada. Desiludido, resolve, assim, ingressar na cruel vida de adulto da sociedade contemporânea trabalhando com o pai. Matou-se. Mas talvez já morrera antes.

Outra personagem envolta pela vida artística e, por conta disso, repleta de problemas é a irmã mais nova de Tyler, uma garotinha cheia de talento para desenho e para a pintura. Ela parece ter um déficit de atenção e, como ela mesma diz a respeito de si, foge da realidade indo para o mundo da lua. A menina não consegue se concentrar nas aulas, obrigando a professora a estalar os dedos várias vezes, interpelar sua atenção em voz alta, o que gera, entre outros alunos, um motivo de zombaria e bullying. Charles, o pai, parece não estar nem um pouco interessado nos dotes artísticos da filha. Fato que gera ainda mais revolta em Tyler.

Voltando para a cronologia dos fatos apresentados no filme, Tyler, instigado por seu amigo Aidan, resolve se vingar do policial que os prendeu, aproximando-se de sua filha, Ally (Emilie de Ravin), coincidentemente também estudante da faculdade que Tyler frequenta (nada escapa ao clichê neste filme). O que vem depois é óbvio, então não vou me estender: paixão, briga, drama. 

No final do filme, Tyler aceita trabalhar para o pai, já que ele quer, enfim, construir a vida ao lado de seu amor, Ally. Ele vai, então, ao escritório do pai, enquanto este está na rua, levando a talentosa filha ao colégio. Na sala de aula, a professora escreve a data no quadro: 11 de setembro de 2001. Tyler volta à cena, olhando pela janela a cidade de Nova Iorque, enquanto a câmera se distancia de seu rosto e mostra o prédio em que ele está. Duvido que vocês possam adivinhar qual era.

O rapaz morre no atentado terrorista. Talvez eu esteja querendo ver chifre na cabeça de cavalo, mas pode ser que esse final seja uma metáfora. A morte de Tyler, na verdade, se deu quando ele aceita fazer parte da ordinária vida das pessoas comuns. Ele abandona sua ligação com a poesia, sua relação com as reflexões filosóficas, sua cisma em despropósitos e vai viver como um cidadão novaiorquino dentro de uma salinha de escritório.

Talvez, e só talvez, o filme oferece uma reflexão sobre o verdadeiro terrorismo: a imposição social de uma vida voltada para o trabalho, em que a arte e os despropósitos não têm lugar.
O filme é besta, clichê, composto por rostos bonitos e prende com muita facilidade gente boba como eu.



Robert Pattinson - Remember me - Lembranças. Filme emocionante ...

Gostaria de fazer a referência deste texto em um trabalho escolar ou acadêmico? Veja:

ANDRADE, Charles Teixeira de. "Lembranças: um clichê bobo com uma suposta crítica sobre o lugar da arte na sociedade"; Pedra Pequena. Disponível em: https://pedra-pequena.blogspot.com/2020/06/lembrancas-um-cliche-bobo-com-uma.html. Acesso em:

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