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Homicídios em massa

Juliano sempre quis ser escritor. Ficava, desde bem moço, escrevendo sobre tudo que lhe vinha à mente, até mesmo seus pensamentos mais obscuros sobre a morte. Isso porque a vida não lhe era tão boa assim. Morava num barraco ao lado da linha férrea, trabalhava catando papelão pelas ruas ajudando sua mãe e seus quatro irmãos mais novos. Fora essa força em ajudá-los a sobreviver, não lhe brotava mais nenhuma. Daí escrevia. Escrevia ao anoitecer, próximo a um bico de luz puxado de forma precária do barraco vizinho ao seu. Não tinha pai. Morrera por uma bala perdida num tiroteio na cidade. Mas sobre isso ele não escrevia. Era muito apegado a ele. Quando tentava pôr algumas palavras no papel, as lágrimas atrapalhavam sua visão e borravam o que já tinha escrito. Desistia logo. Queria desabafar sobre isso. Não conseguia.
Certa vez Juliano deixou seu caderno com arames tortos de tão velho sobre a mesa, e sua mãe, mesmo com pouca instrução, pegou para ler. Aquelas palavras apaixonadas pela morte não lhe causaram boa impressão.  Desde então ficava preocupada com seu filho mais velho. Fora ali, naquele dia, que descobrira também que Juliano tinha um sonho: voltar a estudar para se tornar um grande escritor. Coitadinho... não sabia que a vida de escritor também era difícil!
Dona Isabel, como era conhecida pela vizinhança, não conseguia parar de pensar em formas de ajudar seu filho mais velho a voltar para escola. Porém tudo lhe parecia muito difícil e complicado. Se pelo menos ela conseguisse que ele fosse apadrinhado por alguém com melhores condições... Mas, mesmo assim, quem ajudaria a colocar a comida na mesa se Juliano deixasse de auxiliá-la nas ruas?
Agora Juliano já tem seus 32 anos, e escreve enquanto espera por clientes que queiram comprar balas, na saída do metrô. Sua mãe morrera no último inverno, acometida por um câncer. Seus irmãos mais novos, já crescidos, vivem por aí... não sabe ao certo... talvez no tráfico... ou na prostituição. Procuraram os caminhos que dessem os proventos necessários. 
Juliano ainda tenta escrever sobre seu pai, mas as lágrimas continuam impedindo. De vez em quando enamora ideias suicidas, contudo toma o cuidado de afastá-las quando se tornam palpáveis. Juliano, ali, na saída do metrô, com a caneta, o papel, as lágrimas e a morte.



Gostaria de fazer a referência deste texto em um trabalho escolar ou acadêmico? Veja:

PAES, Marcílio Moreira. "Homicídios em massa"; Pedra Pequena. Disponível em: https://pedra-pequena.blogspot.com/2018/11/juliano-sempre-quis-ser-escritor.html.html. Acesso em:

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