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Duvidar e revisar


O modo de “articular historicamente o passado” — nos ensina Walter Benjamin em sua sexta tese do ensaio Sobre o conceito de história — “não significa conhecê-lo ‘como ele de fato foi’. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como relampeja no momento de perigo”. De acordo com este ponto de vista, é muito pertinente pensarmos a respeito do modo como nos ensinam, nas escolas, os fatos passados. Tomemos como objeto de análise a abordagem histórica feita sobre a chegada dos portugueses em território brasileiro (ainda ensinada como “O descobrimento do Brasil”). 


A perspectiva, até hoje, adotada por muitos docentes se assemelha à de Pero Vaz de Caminha em sua carta por ser etnocêntrica, unilateral e vertical. Tem-se como referencial a cultura europeia, atribuindo juízo de valor e rechaçando qualquer possibilidade de cultura dos nativos. Estes são vistos como tábulas rasas: “esta gente”, relata Caminha, “não lhes falece outra coisa para ser toda cristã, do que entendemos, porque assim tomavam aquilo que nos viam fazer como nós mesmos; por onde pareceu a todos que nenhuma idolatria nem adoração têm”. Perceba que a forma de olhar os nativos é como quem os vê de cima, de maneira que fossem todos uma só coisa, sem costumes, sem divergências, sem religiões. A alteridade dos índios, isto é, os traços que marcam as distinções individuais de pessoas que fazem parte de uma unidade comum a todos é ignorada; colocando-se, porém, em evidência apenas a identidade, ou seja, aquilo que é homogêneo. 

Em contraposição à carta de Caminha, que se restringe apenas a relatar a hospitalidade e simpatia dos índios, lançando suas especificidades na sombra da arrogância, é possível colocar o conto A primeira comunhão de Afonso Ribeiro, escrito por Alberto Mussa . Afonso Ribeiro é uma figura histórica, citada por Caminha, que ganha vida na ficção. Sendo degredado pela coroa portuguesa por não participar da comunhão cristã, negando, assim, a Deus, Afonso parece descobrir seu lugar no mundo junto dos nativos. Outro ponto interessante na história é a forma que Mussa retrata o modo de organização da vida indígena e as singularidades dos nativos, a começar por nomeá-los. Depois, dá-lhes funções sociais: há o Pagé Suaçutinga, responsável pela liderança e pelo contato com místico; o guerreiro Iperoba e até um "torto", que, semelhante a Afonso Ribeiro, parecia não se encaixar em sua sociedade. Existe, entre os dois primeiros, divergência de ideologias, e o embate dura todo o conto. Essa forma de analisar a sociedade indígena parece muito mais favorável aos avanços obtidos pelas ciências sociais modernas, sobretudo pela Antropologia. O que realmente choca os leitores é o canibalismo narrado e descrito no final do conto. Afonso Ribeiro não teve a dificuldade de comer um semelhante como tinha de se alimentar da carne e beber do sangue de Cristo. Em defesa dessa prática indígena — que, a primeira vista, parece desumana —, sai Michel de Montaigne, em seu ensaio “Dos canibais”. 




A respeito disso, argumenta o autor: “Não me pesa acentuar o horror bárbaro que tal ação significa, mas sim que tanto condenamos suas faltas e tão cegos sejamos para as nossas”. Montaigne entendia o canibalismo não como prática selvagem, mas como cultura imersa em uma tradição cujo fundamento calcava-se na honra e nas virtudes, posto que, ao comer outro guerreiro, o índio absorvia dele suas forças e aptidões. Morrer dessa forma para eles era glória e reconhecimento, era triunfar. Para o autor, "há mais barbárie em comer um homem vivo que morto, dilacerar com tormentos e martírios um corpo ainda cheio de vitalidade, assá-lo lentamente e arrojá-lo aos cães e aos porcos (...) que em o assar e comer depois de morto", como faziam os europeus. De acordo com esse ponto de vista, é evidente que a própria ideia de que os índios fossem bárbaros e sem cultura pode ser questionada quando Pero Vaz de Caminha anuncia: “o melhor fruto que dela (da terra brasileira) se pode tirar parece-me que será salvar esta gente”.



Diante disso, é necessário pensar a lógica da salvação de acordo com Benjamin, uma vez que, para ele, cada geração possui um sentimento de redimir os erros da anterior e acredita possuir vocação messiânica. Assim sendo, “somente a humanidade redimida poderá apropriar-se totalmente do passado”. No entanto Benjamin nos ensina a duvidar da diacronia histórica, haja vista que, segundo ele, a história não possui linearidade nem totalidade. Ela é, ao contrário, contada pelos vencedores e, por conta disso, devemos desnaturalizar a narrativa triunfante e universal, já que a história é, na verdade, como relâmpagos, flashs, recortes e não uma adição de fatos. Partindo dessa ótica, toma-se o materialismo histórico como chave para entender a história, pois ele propõe revisão dos fatos anteriores em função do resultado posterior, diferentemente da história tida como universal, que edita os recortes históricos de forma semelhante à montagem cinematográfica. 

Em vista de tudo isso, inferimos que é necessário duvidar do modo como a história nos é apresentada. O ensino precisa desprender-se da perspectiva triunfalista e da narrativa dos vencedores. Embora Caminha tenha afirmado que os povos daqui aceitariam tudo facilmente, isso não ocorreu. O sentimento de união repetido a fim de criar uma ideia de nacionalidade brasileira foi incutido brutalmente como revela Lúcia Murat em seu filme “Brava gente brasileira”, no qual é retratada a interação dos portugueses com índios, e estes conflituam-se contra aqueles, negando-se a aprender o idioma português e matando os possíveis filhos que nasceriam, frutos de estupros. Por isso, “a tradição dos oprimidos”, como afirma Walter Benjamin, “nos ensina que o ‘estado de exceção’ em que vivemos é, na verdade, a regra geral. Precisamos construir um conceito de história que corresponda a essa verdade”.

Gostaria de fazer a referência deste texto em um trabalho escolar ou acadêmico? Veja:

ANDRADE, Charles Teixeira de. "Duvidar e revisar"; Pedra Pequena. Disponível em: https://pedra-pequena.blogspot.com/2019/04/o-modo-de-articular-historicamente-o.html. Acesso em:

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