O modelo de educação vigente ainda traz consigo muito do modelo das fábricas. Como os modelos de produção influenciam a forma de ensino? Qual a relação entre as instituições de ensino e a política positivista e como isso se reflete na nossa sociedade?
No séc XVIII, começa uma série de mudanças na Europa que deixa esse episódio da história conhecido como Revolução Industrial. A principal delas é na forma de produção. Antes, o artesão era dono de seus meios de produção e dominava todo o processo. Com as fábricas, o trabalhador passa a ser assalariado e domina apenas a etapa da produção pela qual é responsável. Em 1913, Henry Ford concebe a linha de montagem para a fabricação do Ford-T. A invenção aparece no filme Tempos Modernos, de Charlie Chaplin, em 1936, onde o operário executa repetitivamente a mesma tarefa.
TEMPOS Modernos. Direção de Charlie Chaplin. Nova Iorque: Charles Chaplin, 1936
A educação se torna mais necessária com o número de pessoas que migram do campo para a cidade em busca de trabalho nas fábricas. Até hoje, vemos similaridades entre a escola e o processo de produção. A repetição como forma de aprendizado, o uso de uniformes, os alarmes controlando os horários, a divisão em etapas e a padronização. O mundo que se voltou para produzir e consumir, tornou o processo de aprendizado uma linha de produção.
Se uma criança quer ser engenheira, dizemos a ela que precisa estudar matemática, filosofia não precisa. Se a mesma quiser ser bióloga, ai sim estuda biologia. O conhecimento na nossa sociedade está sempre em função do mercado. Inclusive, a escolha da profissão se dá, muitas vezes, pelo salário desta. Como outra consequência deste mesmo movimento, o próprio conteúdo se distancia cada vez mais da sua prática, significado e aplicação. Percebi no ensino fundamental o motivo dos alunos, em geral, não gostarem de matemática. Um bando de números que não faziam sentido algum. “A soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa” era frase repetida por meus colegas do colégio exaustivamente. Bastava mudar o nome “cateto” para “batata” que ninguém entendia mais nada. “Os quadrados dos catetos” ou “quadrado da hipotenusa” pareciam códigos abstratos aos alunos, que tentavam apenas gravar a equação.
Achei no Youtube esse vídeo em que foi construído um modelo físico do triângulo retângulo com os famosos quadrados de cada lado do mesmo. Os quadrados dos catetos são enchidos com água e, ao girar o modelo, a água preenche perfeitamente o quadrado da hipotenusa.
Link do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=bS-D0XeFMPQ
A maior ferramenta do aprendizado é a associação. Paulo Freire alfabetizou adultos em tempo recorde utilizando palavras presentes no cotidiano destes. Voltando ao exemplo do Teorema de Pitágoras, o mesmo pode ser ensinado pedindo ao aluno que desenhe quadrados utilizando cada lado do triângulo, calcule suas respectivas áreas e some os dois menores, chegando então, na área do maior. Em seguida, o modelo das imagens acima pode ser construído pelos alunos para que se faça o experimento prático. Apenas depois, o aluno poderia ser exposto à equação a2 = b2 + c2 . Esse número maior de associações é extremamente mais eficiente do que um maior número de repetições, pois cria maior entendimento e compreensão. A matemática, de abominação, passa a ser algo fascinante. Essas associações não devem se limitar a conhecimentos e práticas da mesma disciplina.
O modelo ortodoxo de educação cria analfabetos funcionais de forma geral. Mesmo no ensino superior, é grande o número dos alfabetizados que não compreendem o conteúdo dos textos. E essa objetividade proposta pela sociedade da ordem e do progresso reverbera em todas as esferas. É a fragmentação extrema do saber que não dialoga com outras disciplinas e se afasta dos seus objetos, dificultando a compreensão do aluno. É o vestibular que coloca o aluno em função de nota. É o mercado que coloca o conhecimento em função do salário e que cria doutores em engenharia extremamente ignorantes em conhecimentos fundamentais para a vida em sociedade, como a filosofia, história e sociologia. É a economia sendo usada como critério para eleger um candidato extremamente preconceituoso, ignorante e movido pelo ódio. Veja a que ponto chegamos. A economia deveria ser uma linguagem utilizada para avaliar e otimizar, através da produção e riquezas, a qualidade de vida de um povo. Porém, em algum momento, as coisas perdem seus sentidos. Em algum momento, sacrificamos outras vidas em prol dos números demonstrados pela tal economia. A educação não se limita à escola de forma espacial e muito menos cronológica. O ensino de base é, ou deveria ser, uma base para o resto da vida, pois é até seu fim que se prolonga o período de aprendizado. A forma como se dão as relações do indivíduo na fase da escola, irão reverberar em todas as outras fases de sua vida. Como vão se comportar na sociedade, quais candidatos irão eleger, que tipo de profissionais serão e que mundo irão ajudar a construir. Infelizmente, hoje, o que dita tudo isso é o mercado.
Gostaria de fazer a referência deste texto em um trabalho escolar ou acadêmico? Veja:
LUGÃO, Rodrigo. "Escola-Fábrica"; Pedra Pequena. Disponível em: https://pedra-pequena.blogspot.com/2020/03/escola-fabrica.html. Acesso em:
LUGÃO, Rodrigo. "Escola-Fábrica"; Pedra Pequena. Disponível em: https://pedra-pequena.blogspot.com/2020/03/escola-fabrica.html. Acesso em:

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