Em janeiro de 2020, o mundo via o que se passava em Wuhan (China) e ignorava. Em fevereiro foi a vez da Lombardia (Itália) revelar o quão perigoso poderia ser o Novo Coronavírus. O mundo ainda dormia. Finalmente, em março de 2020, com a contaminação acelerada, o mundo e, consequentemente, o Brasil começaram a mostrar preocupação e a emitir todos os tipos de recomendações e decretos favoráveis ao isolamento social.
Diante disso, boa parte do comércio e serviços foram paralisados. Todas as escolas foram fechadas e os meios de transporte mal circulavam. Para entrar e sair de várias cidades era preciso obedecer a critérios rígidos e passar pelo crivo das guardas municipais. Em 31 de março de 2020, o Brasil alcança o marco de 4.683 casos de covid-19 e 167 mortos pela doença. Um mês depois, no dia 30 de abril, um novo marco é alcançado: o Brasil registra 85.380 casos de covid-19 e 5.901 óbitos. Nesse contexto, apesar de existir o debate sobre o retorno ou não das aulas presenciais, a opinião pública e científica era quase unânime: não é hora de permitir o retorno das aulas presenciais, pois o risco de contaminação é enorme.
Todavia, um ano depois, em março de 2021, parece que tudo está de ponta cabeça. Explico. Hoje, 10, o Brasil bate todos os recordes e registra 2.349 mortes em 24 horas. A contaminação se encontra tão descontrolada que qualquer tentativa de mensurá-la não é confiável. São 270.917 óbitos desde o início da pandemia, 22 estados com alta nas mortes, e o mais inacreditável: muitas escolas abertas, mesmo a comunidade científica recomendando o fechamento de todas elas e o lockdown nos estados.
Após tanto tempo convivendo com a doença e suas consequências, a impressão é que os brasileiros perderam a empatia e banalizaram as mortes. Nos últimos meses surgiram inúmeros grupos, inclusive de pediatras que não possuem a mínima noção do que é estar em uma escola pública, reivindicando o retorno presencial das aulas. Fica mais evidente o quanto o capital tem controlado a vida das pessoas, e o quanto a sociedade enxerga o profissional da educação como babá de seus filhos, sem ter a intenção de desmerecer essa profissão que presta um grande serviço à sociedade.
A questão é outra: o discurso de que é preciso valorizar a educação e seus profissionais nunca se mostrou tão vazio como agora. Aqui no Rio de Janeiro, por exemplo, esses profissionais estão há 7 anos sem reajuste salarial e sendo obrigados a enfrentar uma sala de aula, muitas vezes sem ventilação, em escolas que, segundo os órgãos governamentais, seguem os protocolos de prevenção à covid-19 como se isso fosse o suficiente para deter a contaminação. Sem falar também que para muita gente esse protocolo é apenas usar máscaras de tecido – já sabidamente não recomendadas pela maioria dos cientistas – e passar álcool em gel nas mãos. Não há face shild e tampouco fiscalização sobre o uso adequado das máscaras e sobre o afastamento entre as pessoas. Grande parte dessas escolas possui banheiros com péssima higiene e circulação de ar. Além disso, não são poucas as que apresentam apenas um corredor – quase sempre apertado – de entrada e saída de estudantes.
Toda essa situação, portanto, reforça a necessidade de união e organização dos profissionais da educação. Costumo dizer que não há uma conquista sequer da categoria que não se deu através da luta, da reivindicação e do grito. É preciso ocupar o lugar de fala na sociedade e impedir que outros profissionais – médicos, políticos e jornalistas – falem o que é melhor para a educação do país. A voz do professor não pode se limitar à sala de aula, mas transpor essas paredes e chegar nas secretarias de educação, nas câmaras de vereadores, nas assembleias legislativas e, enfim, em todos os lugares.
Referências:
BRASIL registra 2.349 mortes em 24 horas, novo recorde desde início da pandemia; média móvel também aumenta. G1. 2021. Disponível em: <https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2021/03/10/brasil-registra-2349-mortes-em-24-horas-novo-recorde-desde-inicio-da-pandemia-media-movel-tambem-aumenta.ghtml>. Acesso em: 10 mar. 2021.
CARBINATTO, Bruno. Covid-19: Europa começa a exigir máscaras médicas em vez das versões de pano. Superabril. 2021. Disponível em: <https://super.abril.com.br/saude/covid-19-europa-comeca-a-exigir-mascaras-medicas-ao-inves-das-versoes-de-pano/>. Acesso em 10 mar. 2021.
LINHA do tempo do Coronavírus no Brasil. Sanar Saúde. 2020-2021. Disponível em: <https://www.sanarmed.com/linha-do-tempo-do-coronavirus-no-brasil>. Acesso em: 10 mar. 2021.
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Imagem:
BEZERRA, Chico. PJG. Disponível em: <https://www.diariodepernambuco.com.br/noticia/vidaurbana/2021/01/matriculas-na-rede-municipal-de-jaboatao-comecam-na-proxima-segunda-fe.html>. Acesso em: 10 mar. 2021.
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PAES, Marcílio Moreira. "Por que aulas presenciais agora?"; Pedra Pequena. Disponível em: https://pedra-pequena.blogspot.com/2021/03/por-que-aulas-presenciais-agora.html. Acesso em:


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